quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Lapso
















Minhas lembranças me traem!
Brincam comigo tal qual moleques travessos brincam de pique-esconde entre os arbustos de uma alameda. Surgem e somem com a destreza de um gato branco que se aventura em um labirinto de paredes altas e pouca claridade. Emaranham-se como fios de pipa, cortantes e finos, impossibilitando a reconstrução da meada cronológica e, assim, me transformam numa inútil e patética desmemoriada.
Tantas coisas guardei comigo, confiando na minha memória, outrora pródiga e eficaz, que hoje, neste meu faiscante lapso de lucidez, corro desesperada quando a consciência me atropela e registro coisas que já nem me lembro mais. Passo muito tempo esquecida. Esquecida de mim mesma. Esquecida pelos outros. Me esquecendo de alguém. Quando me lembro, lembro do nada, do vazio, de ninguém!
Minha memória é negativa: registra o que não houve, o que não aconteceu, quem não veio, aquilo que não vi.
E isso para mim é um alento!
Que triste seria saber que perdi o registro do meu amor... que perdi um som suave me acariciando os ouvidos, que não guardei o toque das mãos numa carícia!
Folheio revistas antigas e me deparo com imagens para mim tão presentes, que, todavia, são batizadas de “retrô”, em reportagens de jornalistas moderninhos que acham "pitorescos" alguns dos objetos que povoam minhas memórias, carcomidas pelo tempo! Um “vai-vem”, brinquedo que divertiu muitas das tardes chuvosas da minha infância, quando eu e meus irmãos ocupávamos o corredor de entrada da casa de meus pais. Naquele corredor fazíamos percorrer pelo barbante a esfera ovalada de plástico, incansável viajante, cuja trajetória durava o tempo de nossa disposição física.
Lembro do velho telefone de disco... Hoje me reencontro com a vitrola, que agora volta soberana, acoplável ao computador e capaz de converter registros sonoros impressos em vinil nos mais modernos sons de MP3.
Trouxe comigo, impressos no rol de objetos inesquecíveis, os cadernos brochura, as canetas de 10 cores, a máquina Xereta, peças de museu das quais não me esqueço....
Registros recentes não ficarão para o futuro. Não duram o tempo necessário para se tornar inesquecíveis. Meus filhos não sentirão saudades, não se apegarão a brinquedos duradouros, não marcarão suas trajetórias com roupas e calçados inacabáveis... Não farão piadas com isso...
— Guardarão uma foto?
— Marcarão suas vidas com um diário de fatos do cotidiano??
— O dia, continuará tendo 24 horas???
— Quanto tempo o tempo demorará para passar, na velocidade em que se apresentam as mudanças, que vão do totalmente indispensável ao instantaneamente descartável?

Não sei mais. Nem sequer me lembro de ter telefonado para um amigo para desejar-lhe saúde e sorte, não me recordo de ter festejado o aniversário de meus irmãos, nem mesmo sei que dia é hoje.
Não me lembro. Lembro de ter me esquecido da pessoa que fui.
Sei que tenho vagado sem registros das minhas lembranças recentes, que de tão rápidas, marcaram apenas como um lampejo.
Foi um piscar de olhos que não se transformou em realidade.

Lembro-me do beijo que sofri por não ter dado.
Lembro-me da vitória que não comemorei.
Lembro-me do vazio que ficou ao final da batalha que venci, mas não ganhei...
Lembro-me de ter amado! Esta é a mais forte lembrança que caminha comigo agora. Tão forte que me vem à mente atordoada com a força de uma realidade.
Palpável como um corpo que me aquece e sonora como esta voz que sussura ao meu ouvido:

— Dorme! Fica em paz e não esquece de mim...

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