segunda-feira, 20 de março de 2017

Dia 19 - Paramentos, Padroeiro e outras santidades


Diário da CPTM
365 dias de uma Passageira
19.03.2017 - crônica 2 


Hoje é 19 de Março. Dia de São José, o santo padroeiro da cidade onde nasci, resido, vivo!

Hoje, na minha cidade, em homenagem ao Padroeiro e em comemoração ao aniversário da emancipação local, é feriado. E, além de tudo, é domingo.

Porém, contrariando todas essas informações, que seriam suficientes para que a vida me concedesse o dia de hoje para ser desfrutado como folga, saí cedo para trabalhar.

Habitualmente, aos domingos, vou de carro, já que o trânsito, mínimo, favorece a rapidez da viagem.

Hoje foi uma exceção: um aniversário na família fez com que meu carro, compartilhado com meu marido, ficasse em casa, a serviço dos afazeres da festa - Guilherme, nascido no dia do Santo Padroeiro de Ribeirão, completou hoje 13 anos.

Então, lá fui eu para a estação.
Cidade silenciosa e recolhida.

Seria um dia cheio: previsão de um desfile cívico comemorando a emancipação do município. Festa em família... Uma missa no fim do dia em honra do padroeiro. E eu, mais uma vez, correndo para embarcar numa composição da CPTM, rumo ao Theatro Municipal de São Paulo.

Como de hábito, redigi minha crônica, "quase-diária", dentro do trem. Falei da fé, da tentação e do propósito.

E acho que o dia de hoje estava propício para os assuntos da santidade! 

Utilizo o tempo do percurso Ribeirão Pires-Brás para registrar minhas impressões de tudo o quanto acontece nos trens da CPTM. Falo sobre qualquer assunto que me toque. Desde as situações às pessoas, dos dramas às comédias, do concreto ao abstrato.

Não há uma regra para meus temas.

Hoje foi assim... já havia falado das funcionárias da FAÍSCA, que merecem minha total admiração. E hoje descobri que existe uma outra empresa de limpeza que atua na CPTM: TONANNI.
Mas a empresa não me importa. A mim, importam as pessoas...

Hoje, ao chegar no Brás, absorta pela finalização da minha crônica diária, falando da tentação e do propósito, terminando ainda o último parágrafo, ouvi o aviso de chegada à estação e o sinal de abertura das portas. Ainda sentada, redigindo o final da crônica, sem maiores conferências, dei o "publicar", levantei e desembarquei...

Encarei as escadas, caminhei pelo saguão da interligação CPTM-Metrô e, ao chegar no bloqueio, repetindo meu habitual gesto condicionado de ajeitar a bolsa no ombro para cruzar as catracas, me dei conta de que meu ombro estava leve e vazio... 

Eu havia esquecido minha sacolinha, com as roupa do concerto, os sapatos, as partituras, ... tudo, ... tudo dentro do trem!

Saí de casa cedo, para cantar no Theatro e, naquele instante, me vi privada dos paramentos todos que necessitaria para subir ao Palco.

Dei meia volta e corri loucamente em direção à plataforma da CPTM, sem muita esperança de sucesso.

Chegando, procurei pela segurança da plataforma, já que o trem trafegava para fora da plataforma, sendo recolhido. 

Ela me indicou os profissionais de limpeza, que verificam os vagões antes de liberar a composição para o início de outra viagem.

Ali, na extremidade da plataforma, ao lado de um armário de alvenaria com portas de vidro, encontrava-se um senhor uniformizado, em trajes que indicavam, ser ele, funcionário da Tonanni.
Ao ver que me aproximava desesperada, ele tranquilamente abriu as portas de vidro do armário de alvenaria. Como por um milagre, vi surgir, de lá de dentro, minha sacolinha, contendo meus paramentos todos, intactos, antes mesmo que eu tivesse dito a ele o que procurava. 

Ele já sabia!

Aproximou-se serenamente, estendeu o braço e na extremidade de sua mão pendia minha sacolinha contendo meus pertences. 

Contrapondo-se à minha ansiedade, perguntou-me calmamente:
- É sua?
- Sim senhor! O senhor salvou meu dia! Muito obrigada!
- De nada, moça. Boa sorte.
- Por favor, qual é seu nome?
- José. 

Naquele momento entendi que ao embarcar no trem para trabalhar, logo cedo, em pleno feriado municipal, enquanto tantos outros desfrutariam daquele dia de folga, fui contemplada com a companhia do Santo Padroeiro da cidade onde nasci.

Ele foi, hoje, meu anjo da Guarda que, curiosamente, decidiu se paramentar de profissional de limpeza da CPTM.

Dia 19 - Tentação, Propósito... Tentação outra vez!

Diário da CPTM
365 dias de uma passageira
19.03.2017

A CPTM é um universo à parte. Já  disse isso antes e, antes que me acusem de ser repetitiva, quero declarar: vou me repetir inúmeras vezes, porque só detecta diferenças aquele que não olha o mundo de relance.
Tenho o universo da CPTM como cenário quase diário. Mas o encantamento que sinto não se dá pela visão das coisas, mas pela escuta das pessoas.
Escuto quase tudo. Escuto demais, escuto bem.
Meu ouvido detecta ruídos que quase ninguém ouve e isso, no mais das vezes, é um incômodo.
Mas quando estou na CPTM uso os ouvidos pra viajar nas vidas que não conheço, aprendendo com elas coisinhas que devo e, principalmente, o que não  devo fazer.
Aprendo truques de auto-maquiagem, dicas de limpeza, estratégias de marketing e abordagem comercial, análise politico-econômica, culinária, psicologia, sedução, regras de boa-(e não tão boa)-vizinhança...
É um universo rico, transitando sobre trilhos de uma via sucateada por anos de falta de investimentos e manutenção.
E mergulho nessa riqueza humana, bebo dela e desembarco, diariamente, levando sempre  uma informação nova.
Hoje aprendi sobre a tentação e o propósito...
Considero que uma das grandes riquezas da CPTM são as funcionárias da FAÍSCA,  empresa de limpeza terceirizada que mantém limpos os banheiros, acessos e estações da CPTM.
Posso garantir: eita pessoal que trabalha!
Utilizo com frequência os banheiros das estações pelas quais transito e nunca me deparei com um banheiro sem condições de uso.
Considerando a quantidade de passageiros/dia, é obrigação minha afirmar: esse pessoal da FAÍSCA é fogo!
Hoje, entrando na estação  de Ribeirão Pires, ouvi um diálogo entre duas meninas da FAÍSCA.
São meninas de aproximadamente 50 anos. Ambas negras. Ambas com sobrepeso e olhar vivo, porém resignado. Ambas de riso alto, beirando a gargalhada. Ambas de passos lentos e parecidas fisicamente. Parecidas também na fé.
Caminhavam e conversavam... e eu, de ouvidos, caminhando atrás delas:
- Mas não pode ser, irmã! Não tá certo isso!
- Mas é a vontade de Deus, irmã...
- Mas Deus, então, tá querendo errado, irmã!
- Misericórdia, irmã!
- Então agora pode isso, irmã? Eu já tenho um marido ( disse indignada...). Aí Deus cisma, vem e bota outro homem no meu caminho?
- Deus age assim, irmã! Bota a tentação pra medir o tamanho do seu propósito. 
- Tá certo não, irmã! Então é  pra isso que serve a tentação? Já não tá bom o tamanho do meu propósito?
- Ora, irmã,  ora que a tentação passa.
Hoje aprendi que Deus "cisma"...
Aprendi também que tentação é coisa que dá, mas passa...

quinta-feira, 9 de março de 2017

Dia 18 — Vertigem


Diário da CPTM
365 dias de uma passageira.
09.03.2017

Estou dentro do trem. Ele se move, mas nem sempre...

Às vezes, mesmo parados, temos a sensação do movimento, provocada pelo movimento no entorno. A percepção de que algo no entorno se moveu faz com que nos sintamos também em movimento.

Aqui, dentro deste trem, esta sensação é presente, mesmo que ele esteja parado.

Às vezes a sensação é tão real que nos sentimos até em desequilíbrio. Um desequilíbrio que rompe a inércia do repouso. Mas permanecemos parados.
Hoje, dentro deste trem parado, observando a composição vizinha, que de fato se movia, tive esta percepção de vertigem do tombo estacionário: Estava parada, achando que me movia e quase precipitei em direção ao chão...
Eu achando que me movia me deparei com a sensação de que o mundo se movia em torno de mim.

E esta percepção enganosa, que muitas vezes nos coloca no centro do mundo, nos transforma em vértices de convergência dos interesses todos. Nos faz importantes em demasia.

Mas, assim como a ilusão de movimento, que sentimos no trem parado, quando algo no entorno se move, também a sensação de importância exacerbada é enganosa. 
Que movimento é esse, afinal?
Ouço, com frequência, o termo "movimento" e esta divagação sobre movimento enganoso me conduz a um dilema contemporâneo

Movimento, agora, é um termo que tem sido usado para designar atos, manifestações, protestos...
Hoje em dia tudo é "movimento".

Triste, percebi que nunca estivemos tão parados!

E o entorno avança, galopa sobre nossos direitos, avança sobre inúmeras conquistas, atropela anseios e planos.

O entorno gera a vertigem do tombo estacionário.

E cairemos justamente por termos permanecido estacionados.

Salto na próxima estação. Cheguei ao ponto final.

Espero que, ao descer desta composição, meus pés deem fim a esta ilusão de movimento estacionário e meu caminho me conduza, segura, de volta pra casa.

Meu amor, chego já...

* pro meu parceiro de todos os dias, pelo dia de ontem que, comemorado pelo mundo, em homenagem às mulheres, foi também dele.... minha metade. Com quem divido a vida, os repousos e os movimentos todos.
Porque ele me move.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Dia 17 - Meu dia de absoluta vergonha.

Diário da CPTM
365 dias de uma passageira.
08.03.2017

Somente agora, em pé,  no trem lotado da CPTM, assisti o vídeo que mostra João Vitor sendo arrastado pelos seguranças do Habbib's, já desfalecido, seminu, para ser largado em uma calçada, como lixo, enquanto seus agressores retornam tranquilamente ao trabalho, alheios às cameras de segurança que os flagram em inquestionável homicídio.

Ontem, da janela do Metrô, vi, do alto da linha vermelha, chegando à estação D. Pedro II, policiais e um caminhão caçamba e diversos trabalhadores braçais  desfazendo e recolhendo os abrigos precários de cidadãos em situação de rua. É possível que tenham ficado para trás os moradores, excluídos socialmente, abandonados e desabrigados...

Em contrapartida, na bolha que frequento, onde vivo cotidianamente e com as pessoas com as quais me relaciono, a discussão existente paira sobre ser ou não pertinente tirar selfies em espetáculo artísticos...

O espetáculo real está acontecendo diariamente, diante dos nossos olhos e é um espetáculo deplorável!

A alienação e o individualismo avançam de forma voraz, se instalando dentro das vidas de todos, de forma irreversivel, me parece.

Nesse processo não são poupadas nem mesmo as criancas que mendigam comida de fast food, para saciar sua fome e seu desejo, inflados diariamente pelos ataques de marketing, pelas vitrines amplas que expõem o "paraíso" reservado a poucos e ao qual "aquela criança" não terá, jamais, acesso.

Ao mesmo tempo passam por processo de flexibilização as leis contra a mão de obra escrava, que camuflam condutas de exploração humana já apuradas, constatadas, mas ainda não julgadas, envolvendo grandes mandatários da política nacional.

O núcleo de beneficiados pela restrição à informação voltará a existir, de forma oficial, através da reforma do ensino básico, que norteia os conteúdos programáticos das escolas, pois a reforma do ensino somente incidirá sobre os alunos do ensino público, condenando novamente aqueles que não pertencem às camadas mais favorecidas da sociedade à desinformação e ao desconhecimento, num padrão  similar ao analfabetismo endêmico já vivido no país,  até cerca de duas décadas.

Todos os avanços éticos e morais, conquistados em anos de luta das minorias, correm o risco de não se consolidar, sucumbindo a uma onda conservadora de precedentes assustadores no Brasil e no mundo.

Seguem a toque de caixa no congresso as reformas que alterarão conquistas trabalhistas de meados do século passado, colocando o Brasil numa condição semelhante à vivida durante o período colonial.

Ascendem novamente ao poder, de forma hegemônica,  os representantes de uma casta dominante que pouco se importa se uma criança é morta por pedir comida, se cidadãos não tem acesso à moradia digna, se alunos seguem privados de seu direito ao aprendizado amplo e se trabalhadores, que são a mola propulsora da economia, se vêem em vias de retroceder a padrões trabalhistas semi-escravocratas, de forma oficial, numa supressão de direitos legitimada pela lei.

Imbecis manipulados discursam e propagam sua ignorância tosca, obtusa e arrogante, reproduzindo discursos de exclusão,  recheados de termos acadêmicos como "meritocracia", "produtividade", "plano de metas", "ação bem sucedida", "estratégia vitoriosa"... e seguem ladeados por uma imensa horda de fundamentalistas que vomitam salmos e praguejam penas e punições contra aqueles que não seguem as normas de conduta que, no mais das vezes, nem eles mesmos adotam em suas intimidades mais íntimas e inconfessas...

Somos isso. Assim nos definimos como país. E, hoje, mais do que nunca, desembarco deste trem lotado cheia de vergonha por fazer parte desse jogo sórdido de autoflagelo.

O Brasil não tem conSerto!

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Dia 16 — Ho-Ho-Ho

Diário da CPTM
365 dias de uma passageira
13/12/2016



Ah, que o Natal chega e a vida de usuário da CPTM ganha nova dinâmica.
A começar pelos horários.
Horário de pico na CPTM está diretamente relacionado com a vida produtiva e escolar da população.
Portanto, não tem mistério: horário de entrada no trabalho e na escola são os horários de pico na CPTM. Ponto final!
Sendo assim, se você chegar à estação às 7 horas da manhã, encontrará o trem cheio.
Se chegar às 17 horas, encontrará o trem cheio.
Se chegar às 14 horas, poderá viajar tranquilamente, sentado, sem pisão no pé.

Mas, quando chega o Período Natalino.... tudo muda!
Os horários de pico matutinos se aliviam gradativamente, com a chegada das férias escolares.
No dia a dia da composição, entre as inúmeras mochilas de trabalhadores madrugueiros, viajam também mochilas de livros e cadernos... 
O perfil dos proprietários das mochilas escolares é bem típico: as mochilas vem acompanhadas pelos celulares com aplicativos de música, não raro, nos meninos, os bonés de aba reta, as tatuagens e os tênis com cadarços levemente frouxos, deixando os pisantes sambando nos pés. Nas meninas, cabelos multicoloridos, piercings no nariz, unhas esmaltadas com adesivos ou cores diferentes em um dos dedos. E o celular plugado aos ouvidos, sem sombra de dúvidas.
E a meninada estuda no trem! Quando sentados, com a mochila como escrivaninha, cadernos espirais universitários abertos, muitas vezes em páginas de simulados. É incrível a quantidade de alunos de cursos técnicos que frequentam os trens.
Técnicos em enfermagem, nutrição, elétrica e mecânica, são os campeões dentre os usuários a CPTM.
Nos horários de pico noturnos predominam os universitários que trabalham durante o dia. O que diferencia uma parcela de estudantes da outra é a vestimenta. Os universitários geralmente trajam roupas sociais, pois voltam à noite da escola depois da jornada de trabalho diurna.
Coisa incrível como a população do trem é fortemente vincada pelo viés estudantil.
Que bom. Mas.... por quanto tempo ainda será assim?
Ando de trem há mais de três décadas e posso afirmar: nunca houve tantos estudantes viajando de trem, de forma tão autônoma e determinada.

A mão de obra do país também vai na CPTM. O perfil difere dos estudantes em colorido.
A pele tem outra cor. O olhar tem outro brilho. O cabelos também... brilham diferente...
Entre os trabalhadores homens predominam as cores mais sóbrias, a calça jeans, a camiseta, o tênis escuro, botas ou sapatos robustos e mochilas. Todos tem uma mochila. Vida itinerante onde a casa real é apenas dormitório e a casa itinerante vai junto, presa ao corpo pelas alças de uma bolsa, onde cabe uma muda de roupa, uma garrafa d'água, a carteira, a marmita, o guarda-chuva... alguns levam a bíblia, um livro, um remédio qualquer. E o espaço no trem é calculado por pessoa, sem levar em conta que cada um que embarca leva consigo a própria casa às costas...
As mulheres, então, que coisa linda! Levam, além casa, o salão de belezas. Levam a muda de sapatos, levam o amor próprio e a autoestima. Arrumam-se cuidadosamente no trajeto. Muitas delas fazem isso em pé, em um espaço exíguo, demonstrando habilidade quase circense, agregando contorcionismo, ilusionismo, malabarismo,  equilibrismo e, acima de tudo, desenvoltura e teatralidade. Levam a capa e espada para defesa pessoal contra os "abusadinhos". Levam a maternidade dentro do celular por onde orientam os filhos à distância. Nossa, levam tanta coisa!
O trem leva tanta coisa que é difícil descrever.
E, no Natal, leva sonhos....
Se esvazia de gentes e leva sacos, caixas e sacolas, como um trenó!
Leva sacos de pertences adquiridos nas ruas de comércio popular de toda São Paulo.
Na linha Turquesa predominam as compras feitas na Rua 25 de Março, Maria Marcolina e José Paulino. Brás e Luz presentes no movimento comercial do Natal.
A região central de São Paulo abastece todo o comércio de bugigangas natalinas de origem chinesa, baratinhas, sub-precificadas às custas da mão de obra escrava. Abastecem as lojas de shoppings com roupas confeccionadas por Bolivianos sub remunerados da região da Luz, Coreanos aprisionados do Bom Retiro, Nordestinos não recenseados de todo o país.
Aqueles sacos e sacolas gigantes, levados dentro da CPTM levam, a precinhos populares,  as mesmas roupas que pendem dos cabides de magazines, diferindo das roupas do shopping apenas na etiqueta, existente nestas e ausentes naquelas....
E os sonhos embarcam na composição da CPTM embalados em sacos de lixo, em sacolas gigantes, amarradas em carrinhos de bagagem, em caixas de papelão fechadas com fita adesiva larga. São tantos pacotes que tumultuam o embarque no horário de pico Natalino, que, pasmem, altera-se sensivelmente.
No período Natalino o horário de pico acontece entre as 12 e 14 horas. O pico é em pleno horário de almoço.
Quando o sol esquenta, as sacoleiras, assim chamadas por conta de suas bagagens, já encerraram suas compras.
Rumam para a estação em grupos de 3 ou quatro. Alegres, falando alto, debochando das vendedoras ou reclamando dos donos das lojas, comemoram os bons negócios. Festejam as boas compras e, ainda mais, as possíveis vendas.
Vão tantos sonhos dentro daquelas sacolas....
Vai a boneca da filha, vai o carrinho do filho, vai o panettone da ceia, vai o celular novo do marido, vai a quitação da fatura do cartão de crédito, vai o bate-e-volta pra Santos no Réveillon.
Vai tanta coisa que o horário de pico deixa de ser meu foco nesta narrativa.
O foco agora é imaginário. Imagino o horário dos fogos, o horário dos brindes, o horário do amigo-secreto em família... Vejo os olhares, ouço a ansiedade. comemoro o presente recebido. Mesmo que não seja o meu!
Isso tudo se concretiza, dentro dos vagões da CPTM, durante as 3 primeiras semanas de dezembro.

Nas outras 49 semanas do ano o pico é outro. Não se assemelha em nada a essa agitação festiva de quem "camelou" o ano todo e foi se refestelar nas compras de Natal.
Nada, nadinha.
Ficam apenas duas certezas em quem observa tudo isso, como eu, há mais de 30 anos: o Natal deveria ser para todos, mas a CPTM, certamente, é somente para os fortes!







domingo, 11 de dezembro de 2016

Dia 15 — Espelho d'água

Diário da CPTM
365 dias de uma passageira.
10/12/2016


 A melancolia da chuva, que lava tudo, fica represada na CPTM.
Coisa melancólica é pegar o trem em dias chuvosos.
A começar pelo trajeto: quem utiliza o trem como meio de transporte, salvo raras exceções,  não possui outro meio satisfatório para a locomoção intermunicipal. Se possuísse, não iria até a estação de trens em dia de chuva!
Caminhar sob a chuva para adentrar um vagão de trens com a roupa molhada, os pés mergulhados no sapato empiscinado, nas mãos  o guarda-chuvas, guardando as gotinhas respingadas que não atingiram a roupa; é bem pouco animador.
Ao chegar na plataforma podemos ver o protagonismo dos guarda-chuvas. Uma profusão de cores e tamanhos, muitos deles abertos e alinhados, sob os quais perfilam-se também os passageiros, à espera da composição. Outros tantos repousam fechados, dentro de sacolinhas de supermercados, encarregadas de represar as gotinhas retidas no tecido impermeável do protetor de respingos.
O chão da plataforma é incansavelmente seco pelas heroicas funcionárias da Faísca. Rodos de meio metro de palheta tentam vencer as invencíveis poças d'água dispostas ao longo da plataforma.





Os camundongos que normalmente festejam ao sol, recolhendo migalhas e farelos, correndo de dormente em dormente, por entre os pedriscos, sob o trilhos, desaparecem. Nem eles gostam da estação em dias de chuva.
Era pra ser poético. Poderia ser uma invocação intimista de memórias de acolhimento. A chuva tem esse potencial...
Mas, por que as estações de trens em dias de chuva só são poéticas nas cenas de filmes, onde os casais enamorados se despedem sob os respingos, trocando juras de amor eterno e reencontro futuro?
Certamente porque faltam nas cenas reais as capas de gabardine impermeável , lindas e impecáveis. Faltam as coberturas em toda extensão da plataforma, protegendo os passageiros. Faltam os Fords Bigode dos quais desembarcam as donzelas em vestidos godê "guarda-chuva", devidamente engomados  e "ensaiotados".
Falta tanta coisa.
Falta inclusive a poesia, capaz de ver um horizonte na janela respingada e de imaginar um espelho d'água no chão encharcado do vagão, molhado pela chuva torrencial que entra pela porta, junto com os passageiros, no momento em que o trem se abre na porção descoberta da plataforma.
Estive, hoje, em um vagão assim. Encharcado!
Eu estava seca, mas havia quem não estivesse... Vim caminhando por sob as marquises do caminho.
Por sorte meu caminho tinha marquises... Mas há caminhos que não as tem!
Olho para o chão do vagão e vejo nele mais do que aquele piso encharcado, pisoteado e escorregadio.
Hoje, durante a viagem, ele foi meu espelho d'água. 
No momento do desembarque foi, hoje, a minha "Fontana di Trevi"...

 

Habitualmente sou a última a descer. Hoje não foi diferente.
Antes de sair abro a bolsa, retiro uma moeda e arremesso, por sobre o ombro, para dentro do vagão, sem olhar pra trás. Ela ficará lá, como memória física do meu desejo.
Fiz um pedido. Espero que ele se cumpra.
Uma moeda só, portadora de vários desejos, que são pra todos...
Desejo um mundo onde a chuva não desabrigue e que seja sempre acolhedora. Um mundo onde haja mais gotas frescas  e revigorantes nas janelas respingadas pelas quais se possa avistar nuvens leves e translúcidas no horizonte...
Desejo mais espelhos d'água e mais caminhos com marquises...
Hoje, diferentemente dos outros dias, não desembarquei sozinha! Decidi desembarcar de braços dados com a poesia.
E ela permaneceu comigo, apesar de você, CPTM.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Dia 14 — Fecundação

Diário da CPTM
365 dias de uma passageira
07/12/2016


Sabe aquela aula de biologia em que você aprendeu como começa a vida?
Aquela aula que diz que a vida inicia com uma história de vitória, que a corrida pela fecundação resulta da luta pela sobrevivência e que o espermatozoide mais forte e capaz é quem vence os obstáculos com sua resistência e chega à frente dos demais e fecunda o óvulo?
Então, esta luta não acaba nunca...
Aliás, ela só aumenta!
A fecundação é apenas um presságio dos dias vindouros, e aqui, em especial, tratarei da sobrevivência dos usuários da CPTM!
Resistir, superar e sobreviver são os lemas do cidadão que anda de trem.
E a fecundação acontece em cada estação, a cada parada da composição na plataforma.
Estranho?
Veja bem:
O princípio da fecundação consiste em um receptáculo (óvulo) que, quando maduro, é liberado de seu ambiente de reserva (ovário) e conduzido por uma via segura (trilhos) até a região da fecundação (útero).
Ali, acolhido pelo órgão que o protegerá durante todo o processo reprodutivo, aguardará pela outra metade da fecundação, o espermatozoide.
O espermatozoide vem, invariavelmente, de um outro corpo, daí a natureza sexuada do processo reprodutivo.
Adentra a estrutura acolhedora através de um duto, que o conduzirá ao óvulo.
Mas, não virá sozinho.
Virão aos milhares, apressados, dispostos e competitivos. Cheios de pressa e no afã de atingir em primeiro lugar o objetivo final: o óvulo.
Mas, ao chegarem, perceberão que a chegada é apenas o início do drama. Estarão ali, aos milhares, cercando uma estrutura na qual, visivelmente, não haverá lugar para todos.
A chegada deveria ser o ponto final. Mas o ponto final é apenas o começo do drama.
Não bastou ser o mais ágil, nem o mais rápido, nem o mais forte.
O espermatozoide vitorioso deverá contar, também, com a sorte.
Sim, porque aquele que chegou primeiro pode ter chegado no ponto em que não há acesso ao núcleo do óvulo. Ficará ali, se debatendo contra a membrana do óvulo sem conseguir adentrá-la
Há apenas um ponto de acesso ao núcleo do óvulo e apenas um: o mais ágil, mais rápido, mais forte e mais sortudo conseguirá entrar.
E a junção dessas qualidades não se dará de forma diretamente proporcional à grandeza de cada uma delas. A combinação se dá levando em conta o fator sorte.
Dentre aqueles que atingiram o óvulo primeiro (mais ágeis e mais rápidos) haverá aqueles que conseguirão se sobrepor aos demais (mais fortes) e, dentre estes, haverá aquele que estará no exato ponto de acesso, através do qual o centro do óvulo será coroado pelo núcleo masculino vencedor.
Sendo assim, o espermatozoide fecundador, considerado o mais forte, ágil, rápido, pode ter sido apenas o mais oportunista e beneficiado pelo beneplácito do acaso...
Tudo isso me aconteceu hoje! Novamente. Como acontece todos os dias.
Aconteceu comigo, nesta minha rotina de passageira, desde que saí de casa em direção à estação.
Caminhei rapidamente até chegar à catraca, onde outras pessoas já se encontravam perfiladas, acotovelando-se para entrar.
Adentrei a estação e me posicionei, diferentemente dos outros dias, em um outro ponto da plataforma. Meu objetivo era descer já ao pé da escada rolante da Estação Brás, para evitar o corpo a corpo do desembarque.
E lá vem ele. Não o meu querido trem de ferro diário! Vinha, lá longe, um trem cargueiro que, quando surge no horizonte, é certeza de atraso na viagem prevista em pelo menos 15 minutos.
Estes quinze minutos são suficientes para triplicar a quantidade de passageiros na plataforma à espera do embarque.
E assim foi: 15 minutos de espera e acúmulo de passageiros.
Eu ali, em um outro ponto da plataforma, diferente do habitual, sem a certeza absoluta de que ali se abriria uma porta. Se meu cálculo estivesse errado, não teria a mínima chance de viajar sentada até o Brás.
Passados 15 minutos, eis que lá vem o tão esperado coletivo.
Trepida sobre os trilhos, garboso e reluzente.
Eu, sem saber se minha posição na plataforma estava correta, vejo formada atrás de mim uma multidão que foi se posicionando tendo a mim como referência, já que me posicionei antes de qualquer outro passageiro naquele ponto de embarque.
E lá vem o trem, saído de seu ambiente de reserva (garagem), "madurinho da Silva", pronto para acolher os vitoriosos que conseguirem adentrar no ponto de acesso ao seu núcleo. Vem conduzido por uma via segura (trilhos), até a região mais fecunda da estação (plataforma).
E começa a guerra pela sobrevivência, onde cada um, a postos, pretende fazer valer sua força, sua agilidade, sua capacidade de levar ao interior do trem seu material humano.
Antes que o trem estacionasse o movimento na plataforma começou. Fomos ficando cada vez mais compactados, tendo a borda da plataforma como delimitador.
Quem disse que um embarque não é um exercício de sobrevivência nunca viajou em um trem da CPTM.
O trem, despontando no horizonte, agita a tranquilidade da plataforma. As bolsas, penduradas à tiracolo, escorregam dos ombros para as mãos. O espaço existente entre os pacientes-passageiros que aguardam o embarque diminui, assim como diminui, também, a paciência. A agitação faz os corpos se aproximarem até parecerem um e a movimentação, antes independente, se torna grupal. É possível, nestas situações, fazer deslocamentos indesejados, na direção contrária a que se quer ir e, estando ali no aglomerado do embarque, é impossível sair.
A corrida pela sobrevivência se faz cada vez mais presente até que o trem estaciona.
São alguns segundos até que as portas se abram. A movimentação dos corpos se assemelha à luta pelo primeiro instante de vida fecunda em um útero.
Ali vencerá não o mais forte, apenas. Não o mais rápido, apenas. Não o mais ágil, apenas.
Ali vencerá aquele que tiver conjugadas todas estas características de forma satisfatória.  Aquele que se mostrar suficientemente capaz de penetrar a estrutura de forma segura.
Os instantes que antecedem a parada total do trem são de expectativa: ele reduz sua velocidade gradativamente e aos poucos é possível perceber se o ponto de espera coincidirá exatamente com o ponto de abertura da porta.
Às vezes o trem para e as portas não se abrem. Aí a agitação aumenta ainda mais. O vão de aproximadamente 15 centímetros existente entre o trem e a plataforma transforma-se em uma falésia abissal. Nestas situações o risco é ainda maior quando o trem, depois de estacionado, com as portas ainda fechadas e os pontos de embarque definidos, em torno dos quais se aglomeram os pacientes-passageiros-impacientes; resolve fazer ainda um último deslocamento de centímetros até atingir o ponto exato de embarque.
Pode ser a morte. Ou pode ser a sorte...
Hoje foi assim!
Embarque estação Brás — Integração CPTM-Metrô
 Estávamos ali, na luta pela sobrevivência. Embarque matutino. Com predominância de homens.
Algumas mulheres, mas os homens em maioria. Mais altos, mais fortes, mais impacientes e apressados. Todos compactados em torno da porta. O trem estacionado. As portas fechadas...
Como eu havia mudado meu ponto de embarque habitual, acabei calculando mal o ponto de acesso ao interior do trem. Havia ficado próxima à porta, mas na posição em que o trem parou fiquei distante do ponto de abertura. Não haveria chance de entrar e sentar....
Já conformada com a expectativa de viajar em pé, vejo o trem se mover, pouco menos de 40 centímetros.
De repente, posiciona-se à minha frente o centro da porta, suas borrachas pretas de vedação situadas exatamente à minha frente, alinhadas com o septo do meu nariz. Numa posição ideal, num ponto equidistante entre as extremidades esquerda e direita do meu corpo. Exatamente no centro.
A movimentação natural dos passageiros na plataforma exigiu de mim uma resistência maior, para que o ponto ideal em que me encontrava não fosse ocupado, no último instante, por um homem, mais forte, mais apressado, mais imperativo do que eu.
Eis que a porta se abre e a movimentação da plataforma me propulsiona para dentro do trem.
Uma movimentação caótica, tumultuada, conflituosa.
Fui a primeira a entrar e em segundos estava eu ali, vitoriosa, sentada no banco duplo lateral, na janelinha. Meu lugar preferido!

Hoje, nessa luta diária pela sobrevivência na plataforma, não teve mais forte, não teve mais rápido, não teve mais ágil.
Aquele grande útero que me conduz diariamente da estação Ribeirão Pires até o Brás, hoje, foi fecundado por um cromossomo Y, que por um golpe de sorte encontrou o ponto de acesso antes que todos os outros, a despeito da força, do tamanho e da agilidade.
Hoje eu fui o espermatozoide mais capaz do que os demais...
Sorte!